terça-feira, 26 de março de 2013

Os ‘inafiançáveis’ R$ 333 milhões de Lula e Dilma

Em reportagem do Paulo Gama, publicada hoje no site da Folha, o ex-presidente Lula diz que “não só se deveria aprovar o financiamento público de campanha como tornar crime inafiançável o financiamento privado”.

Curioso. Lula só se elegeu presidente depois de abraçar afetuosamente o financiamento privado, em 2002. 




Naquele ano, ele se elegeu declarando ter gasto inafiançáveis R$ 21,1 milhões (R$ 43 milhões corrigidos pela inflação).

Em 2006, se reelegeu declarando ter gasto inafiançáveis R$ 91,5 milhões (R$ 134,7 milhões corrigidos).


Em 2010, elegeu sua sucessora declarando ter gasto inafiançáveis R$ 135,5 milhões (R$ 155,8 milhões corrigidos).


Somando os valores atualizados, foram “inafiançáveis” R$ 333 milhões que elegeram o ex-presidente e a atual. Tudo devidamente declarado, de acordo com a lei.


A maior parte desses recursos veio de empreiteiras e bancos – mesmas empresas que bancaram, generosamente e sem rebate fiscal pelas leis de incentivo à cultura, a produção do filme “Lula, o Filho do Brasil”.


O raciocínio que leva à frase exacerbada é comum: a influência financeira de grandes empresas sobre as campanhas eleitorais desequilibra as campanhas. Essa é uma constatação verdadeira. A partir dela, pode-se tirar duas conclusões opostas:


Como a influência do dinheiro na eleição abre porta para relacionamentos pouco saudáveis, é preciso proibir as doações privadas, pedindo um pouco mais de grana do eleitor

Como a influência do dinheiro na eleição abre a porta para relacionamentos pouco saudáveis, é preciso tornar esse financiamento o mais transparente possível para que o eleitor possa identificar quando os interesses não são republicanos
Mestre Elio Gaspari contou diversas vezes em sua coluna uma história de 2004, em que alguns parlamentares petistas propuseram que o partido desse radical transparência a suas contas eleitorais na internet. Delúbio Soares, então tesoureiro do partido, teria retrucado: “transparência assim é burrice”. Inteligência, para ele, seriam os “recursos não contabilizados”.

Seria um ato de extrema fé no bom senso humano acreditar que uma proibição do caixa-um desencoraje empresas de usar dinheiro para influir na política. Sei que a maior parte dos defensores desse tipo de proposta tem boa intenção, mas acho que eles acreditam demais na boa fé alheia.


O mais provável é que, proibindo-se o caixa-um, o pedaço do financiamento eleitoral que se torna a cada eleição mais transparente volte inteirinho à escuridão do lado de baixo dos panos, enquanto as mãos da classe política entram ainda mais fundo no bolso do eleitor para financiar o lado de cima “puro”, “público”.


Isso sim deveria ser crime inafiançável.


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